quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Sem nostalgia, nenhuma retrospectiva, menos tempo a perder. Símbolos, clichês, anseios de final de ano. Desejo nada disso a você.
Não espero por paz, mas por mentes piedosas.
Não peço luz, e sim discernimento. Não quero guias, contento-me com os sinais.
Respostas não me satisfazem, eu quero perguntas e dúvidas a mais.
Menos pôr do Sol. Mais gente admirando o esplendor do amanhecer.
Desejo caminhos, distintos destinos, outras escolhas a fazer.
Menos certeza, mais coração.
Menos silêncio, mais opinião.
Quem sabe um pouco mais de compreensão, acompanhada de perdão, regada a compaixão.
Encontrar a doçura presente na loucura. Descobrir a mesmice da precisão.
Reconhecer o momento exato da criação.
Saber o significado de cada pequena epifania.
Acreditar em misérias. Ver com olhos não humanos.
Viver, respirar em cada célula de seu eu a sensação de ser um ser humano.

Recomeço, início, tropeço, sorriso, descoberta, esperança, mudança.
Fé.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Vão, sãos.

Um dia não há de mudar uma vida
24 horas não são suficientes pra sanar a ferida
Alguns minutos não te tornam bom o bastante
Luzes e barulho não trazem mais sorte
Abraços sem conforto
Planos sem esboço
Qualquer luz, nenhum poço
Passos e agitação nas ruas
Paz alguma
Mentes e suas sinas
Fadadas a vagar pelas esquinas
Álcool e nicotina
Vão, são, estão
Em meio à solidão.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

07 Flute Concerto No. 2 in D major - 1st Movement

Das palavras esconsas que agonizavam os interlocutores dos tantos discursos sem final, fez-se a apreciação.
Do silêncio mudo criou-se um barulho que de tão taciturno, fez ensurdecer.
Das notas sem nome e da quietude desgastada, tornou a lembrança.
Da lembrança surgiu o sorriso. E o sorriso ficou por estar.

De repente, não mais.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

borrão

Quiça aquilo que te mova seja ilusório e lento, as migalhas o teu sustento.
Talvez, apenas porventura, a realização seja o teu tormento.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Ainda há o que dizer
Restou o que explicar
Faltou o que restava
Fugiu a despedida
Ainda há o sorriso
Restou a lembrança
Faltou a esperança
Fugiu o juízo
Ainda há saudade
Restou a realidade
Faltou compartilhar
Fugiu ao meu olhar.
Ainda resta a falta que foge de mim.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A história de um sorriso

Eis que agora me falha a memória de um dia remoto, lembrança de alguns dias. Mas é que a mente é assim: Esquece e reserva o que há de mais dolorido, para ser lembrado apenas com muito esforço por aqueles que realmente gostam de revirar, reviver, teimar. O que faço agora é sob aviso, ciente dos riscos; E se queres saber, fica assim também avisado.
Fazia Sol, ou talvez chovesse. Ainda não havia escurecido, mas pode ser que a Lua já apontasse lá no céu, irrelevante. Todas as lembranças mais distantes, faço questão de não mexer. Esta é a história de um sorriso. Sim, de um sorriso um tanto esforçado, meio de lado, da cor do asfalto, meio sem dentes.
Ocorreu-me entre dias iguais, nada demais. Caminhava e voava, sonhava grandemente enquanto mentes um tanto vazias discutiam algo que não sei dizer. Parara de ouvir. Entre uma peça, um livro, um amor, uma música, um cantor; entre o meu riso e o outro lado da rua, parou-me o sorriso. Ainda escondido, não me encarara; ao contrário, mirava e remexia a comida, assustado e acostumado, sei que quase latia por causa do barulho perturbador de seu almoço. Mas não era cachorro. Ao contrário do que viam, era gente. E gente feliz, sim. Era gente lúcida, pura, feliz. Encarei-o eu, tropeçando em meus sonhos e planos, olhei para mim. E depois para ele. Todas as outras mentes insanas viram e partiram para longe do animal. Meus pés prenderam-se diante da figura, que protegia o alimento conseguido a muito custo, sei bem. Meus olhos não se moviam, por mais que minha mente implorasse e meus pés quisessem colaborar.
Mirou-me o policial, assustou-se e quase se aproximou. Miraram-me as pessoas, hipnotizadas pelos meus pés imóveis. Mirei-o. Tirei da bolsa o que tinha, senti-me mal por ser pouco, quase obriguei olhos e pés a desviarem o caminho, era eu tão falha que logo aquele dia não tinha nada demais a oferecer. Quis mesmo assim, envergonhada, culpada, dar tão pouco a quem menos tinha. Olhos e bocas entre-abertas se mexiam e apenas me viam. Forcei a fala, e falei meio baixo, sem graça, à gente ajoelhada no chão.
- Oi ... - Mirou-me os olhos que sorriam.
- Oi. - Desviou-se para a comida. Estava tão acostumado a não ser visto, ouvido, que pensou ser de mentira.
- Olha, não é muito, sabe, me desculpa. Mas você quer? Eu não abri, juro! Está limpinho...
Foi então que de verdade, pela primeira vez no dia, aqueceu-me, invadiu-me, respondeu-me, mirou-me, acordou-me, assustou-me, e tudo o mais quanto possa imaginar, foi então que apareceu-me o sorriso, por 5 segundos. Estendeu-se a mão, que sorria. Aproximaram-se meus pés, que outrora não se mexiam, estenderam-se minhas mãos, vacilantes. Apenas os olhos que teimavam em não obedecer, continuavam a castigar-se, castigar-me.
Virei-me, enfim. Caminhei dois passos hesitantes, e pararam com o chamado de uma voz que podia sentir, também sorria.
- Leve isso, quer? - Mostrou-me outro pacote, fechado, maior. Senti-me extremamente mal pela miséria que tinha para oferecer naquele dia. Só depois é que me veio em mente o que aquele sorriso fazia.
- Não, obrigada. - também o meu sorriso respondeu sorrindo.
- Tem certeza? Está limpinho... - respondeu-me com o que eu usara segundos antes.
- Não, obrigada. Fique com você...
Nada respondeu-me, senão com dentes cor do asfalto, que abriam-se em curva, de lado. E com olhos brilhantes, que não sei definir.
- Adeus. Até logo!
Posso dizer, que ao sair dalí e recobrar o juízo, pude perceber o quão deprimente e trágico era aquele sorriso. Ele me dizia, silenciosamente, sussurando-me um segredo a muito escondido:
Isto aqui é minha vida, e tortuosamente eu vivo, sorrindo.

Eis uma história feita para não ser lida, por quem sabe lá o que fez com o dom de escrever, mas que lembra-se, perfeitamente, de um lindo sorriso.

sábado, 29 de agosto de 2009

Se me perguntassem, aos 6, eu diria querer ser bailarina. Para entre saltos e palcos, chegar bem perto do céu. No âmago da dor, silenciar meu pesar, transmitir meu amor, ser sem pudor. Em meu mais excêntrico eu, afundar-me no breu, voltar dentre cores, com aplausos e flores. E sorrir, como uma última sequencia ensaiada.
Se me perguntassem, aos 9, eu diria querer ser pintora. Para poder, com um querer e um pincel, uma idéia e um papel, criar meu paraíso. Dentre lápis e tinta, arco-íris e sorriso, exteriorizar o que sinto. Com rabiscos e linhas, círculos e tiras, exalar o perfume da rosa que chora, desiludida, por não ter vida.
Se me perguntassem, aos 11, eu diria querer ser atriz. Para viver por um triz, em cima de uma linha imaginária que divide a lucidez da loucura. Na inconstância, em meio à amargura dos atores melacolicamente realizados, semeando o riso, provocando o pranto, sendo sempre outra, sendo sempre a mesma, nas noites intermináveis de sexta.
Se me perguntassem, aos 15, eu diria tquerer ser escritora. Para entre injúrias e estórias, loucuras e memórias, viajar por lugares inemagináveis, conhecer verdades incontestáveis, seguir caminho sem nenhuma estrada, ser nada. No complexo mundo de ninguém, não ter nexo e ser alguém, te ensinar o que ainda não sei, transcrever o que ainda não pensei. Acordar e lamentar, redigir e mudar, dar vida a quem não tem, não ter o que tenho, ser vazio e ser inteiro.

Se me perguntarem, aos 16, eu direi querer ser feliz. E caso quiserem saber para que, diria que não existe um porque. Entre palcos e abraços, tintas e passos, prantos e encantos, estórias e memórias, segredos e medos, simplesmente passar. Que nesta vida, eu estou com a bagagem, e vou vivendo só de passagem, enquanto o tempo ainda contar.
De encontro a mim mesma, semeando a felicidade, sendo fortaleza.